Clarice Lispector

"Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós."
Clarice Lispector

Vamos rir um pouco! Leandro Hassum - Programa do Jô

Vapor Barato - Gal Costa e Zeca Baleiro

A utilidade da raiva! Michelle Soccato



Eu quero sentir raiva, mas eu sei que não tenho esse direito. Ora desde quando é preciso permissão para sentir raiva de alguém ou de algo?

A grande verdade é que a raiva não é esse sentimento tão ruim e miserável que não deve ser cultivado, para o inferno essas teorias. A raiva nada mais é do que uma indispensável aliada na hora do sofrimento, graças a ela eu consigo viver um dia após o outro, eu consigo fingir que tenho um sorriso no rosto ao amanhecer, eu consigo dizer a todos que não é nada alem de uma indisposição e principalmente eu consigo vencer esse impulso diário e intenso que me toma todas as intermináveis vinte e quatro horas do dia, e como uma viciada eu termino a cada dia com a famosa e motivacional frase: Mais vinte e quatro horas sem VOCÊ!

Eu tenho que engolir esses contos contados por ai, não, definitivamente NÃO! O que seria de mim neste momento sem essa preciosidade de sentimento? Mais do que desejo eu necessito sentir raiva hoje, amanhã e todos os outros dias em que ela me sirva de aliada para mascarar toda essa solidão que se faz presente em mim, até sei lá quando!
segunda-feira, 29 de março de 2010.

AMBIVALÊNCIA - Michelle Soccato




“Sinto que minha ambivalência esta me matando pouco a pouco” (Michelle Soccato).

Tati Bernardi



"Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu eu gosto de você porque gostar não faz sentido.Permita-se. Se você acha que no fundo mesmo, apesar de todas essas reuniões e palavras em inglês que só querem dizer que você não sabe o que está falando, o que importa é ter pra quem mostrar que saiu o arco-íris. Permita-se. Porque eu não quero que você tenha essa pressa ao ponto de ajudar com as próprias mãos. Eu quero que você sinta esse prazer que chega aos poucos. E mata tudo que há em volta. E explode os relógios. E chega aos poucos ainda que você ainda não saiba nem quem é pouco e nem quem é lento. Porque você morre. Se você prefere a vida quando se morre um pouco por alguém. permita-se.Eu não faço a menor idéia de como esperar você me querer. porque se eu esperar, talvez eu não te queira mais.Eu não queri ir embora e esperar o dia seguinte. porque cansei dessa gente que manda ter mais calma. E me diz que sempre tem outro dia. E me diz que eu não posso esperar nada de ninguém. E me diz que eu preciso de uma camisa de força. Se você puder sofrer comigo a loucura que é estar vivo. se você puder passar a noite em claro comigo de tanta vontade de viver esse dia sem esperar o outro, se você puder esquecer a camisa de força e me enrroscar no seu corpo para que duas forças loucas tragam algum aquilibrio. Se você puder ser alguém de quem se espera algo, afinal, é uma grande mentira viver sozinho, permita-se. Eu só queria alguém pra vencer comigo esses dias terrivelmente chatos.”
Domingo, 28 de março de 2010.

Caio Fernando Abreu



"Não vou perguntar porque você voltou,acho que nem mesmo você sabe...Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão,mas não é,sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar porque você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo..." (Caio Fernando Abreu).

Domingo, 28 de março de 2010.

Caio Fernando Abreu



"Tudo isso me perturbava porque eu pensara até então que, de certa forma, toda minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco como um álbum de retratos. Carregava centenas de fotografias amarelecidas em páginas que folheava detidamente durante a insônia e dentro dos ônibus olhando pelas janelas e nos elevadores de edifícios altos e em todos os lugares onde de repente ficava sozinho comigo mesmo. Virava as páginas lentamente, há muito tempo antes, e não me surpreendia nem me atemorizava pensar que muito tempo depois estaria da mesma forma de mãos dadas com outro ou amortecido — da mesma forma — revendo antigas fotografias. Mas o que me doía, agora, era um passado próximo.”
Domingo, 28 de março de 2010.

NO JARDIM DO TEU CORAÇÃO



Plantei a flor da esperança um dia,
No jardim de amores do teu coração,
E hoje pela vida só colho alegria,
Da flor esperança que vingou paixão.

Eu que trazia um rosário de dores,
Das amarguras restaram quimeras,
Do teu coração fiz jardim de amores,
Renascendo em mim novas primaveras.

Desfolhei o último mal-me-quer da vida,
De um trilhar de tantos espinhos,
Suavizaste o meu sofrer querida,
No céu de teus meigos carinhos.

O meu coração é um jardim florido,
Onde plantaste a flor do bem-me-quer,
E confiante pela vida sigo sorrindo,
Pois encontrei em ti a flor mulher.

(Allan)


Eu só peço a Deus: - Michelle Soccato


Um pouco de ignorância para não sofrer tanto!

Um pouco de burrice para não me achar tão burra!

Um pouco de insensibilidade para não perceber mais do que realmente é!

Um pouco de imparcialidade para não me comprometer tanto!

Um pouco de incredulidade para não fantasiar tanto!

Só um pouquinho, um tiquinho de nada...

Em outras palavras um pouco menos de intensidade, é só isso Deus. Eu prometo!
Texto: Michelle Soccato

Sexta-Feira, 26 de março de 2010.

Monotonia - Michelle Soccato


O mais fácil o que esta sempre a mão, o que esta a espera é sempre monótono e às vezes a monotonia é tudo que a gente precisa MAIS às vezes ela é indispensável. No meio do turbilhão lá esta ela á boa e velha monotonia, sempre as ordens, sempre a postos. É claro que você quer o que é fora da lei, o que é complicado o que é raro, mas no fim das contas você sempre volta para a boa e velha monotonia. Porque se quer uma coisa e se refugia em outra? MEDO.
O que esta fora dos padrões impostos pela sociedade ou por você mesmo causa medo, porque o diferente é sempre idealizado, mas somente isso, viver a diferença são outros quinhentos. Todo mundo fala da tal diferença, e a os que preferem os vilões heróis aos mocinhos arrumadinhos da TV, mas isso é só na tv, no dia-a-dia eu quero mesmo é o mocinho, compreensivo, sempre amigo, nada surpreendente. Pois que fique! Leve pra casa e mantenha sempre embrulhado, afinal, não faz diferença mesmo dentro da caixa ou da sua imaginação é só o mocinho bonzinho e inofensivo de sempre. Fora da lei como eu somente para aventuras e aventureiros, nada alem disso! 1x 0 para a  bonequinha mocinha de LUXO que nada surpreende e encanta, somente é claro a boa e velha monotonia.

Com quem mais? - Michelle Soccato.


Com quem mais eu vou rir tanto?
Com quem mais eu vou ficar dentro de um supermercado por algumas horas sem comprar absolutamente nada?
Com quem mais eu vou dormir no telefone?
Com quem mais eu vou falar por mais de onze horas sem faltar assunto?
Com quem mais eu vou ficar em um mundo metaverso sem nenhuma utilidade a não ser fazermos parte do mesmo mundo, mesmo metaverso?
Com quem mais eu vou ler livros?
Com quem mais eu vou ser tão eu sem ser eu?
Com quem mais eu vou sentir falta de um beijo tão gostoso?
Com quem mais eu vou ouvir com tanta atenção?
Com quem mais eu vou jogar xadrez e vai me deixar ganhar com a desculpa que é pra eu aprender?
Com quem mais eu vou me sentir tão feliz?
Com quem mais eu vou sonhar todas as noites?
Com quem mais eu vou sonhar um futuro tão bom?
Com quem mais eu vou me importar tanto?
Quem mais eu vou amar tanto, mais tanto?

A legião estrangeira - Clarice Lispector.

[..]
Há muito tempo eu tentava de novo bater a máquina procurando recuperar o tempo perdido e Ofélia me embalando, e aos poucos falando só para o pintinho, e amando de amor. Pela primeira vez me largara, ela não era mais eu. Olhei-a, toda de ouro que ela estava, e o pinto todos de ouro, e os dois zumbiam como roca e fuso. Também minha liberdade afinal, e sem ruptura; adeus, e eu sorria de saudade.
Muito depois percebi que era comigo que Ofélia falava.
― Acho... acho que vou botar ele na cozinha.
― Pois vá.
Não vi quando foi, não vi quando voltou. Em algum momento, por acaso e distraída, senti há quanto tempo havia silencio. Olhei-a um instante. Estava sentada, de dedos cruzados no colo. Sem saber exatamente por quê, olhei-a uma segunda vez: ― Que é?
― Eu...?
― Esta sentindo alguma coisa?
― Eu...?
― Quer ir no banheiro?
― Eu...?
Desisti, voltei á máquina. Algum tempo depois ouvi a voz:
― Vou ter que ir para casa.
― Está certo.
― Se a senhora deixar.
― Olhei-a em surpresa:
― Ora, se você quiser...
― Então, disse, então eu vou.
Foi andando devagar, cerrou a porta sem ruído. Fiquei olhando a porta fechada. Esquisita é você, pensei. Voltei ao trabalho.
Mas não conseguia sair da mesma frase. Bem ― pensei impaciente olhando o relógio ― e agora o que é? Fiquei me indagando sem gosto, procurando em mim mesma o que poderia estar me interrompendo. Quando já desistia, revi uma cara extremamente quieta: Ofélia. Menos que uma idéia passou-me então pela cabeça e, ao inesperado, esta se inclinou para ouvir melhor o que eu sentia. Devagar empurrei a máquina. Relutante fui afastando devagar as cadeiras do caminho. Até parar devagar á porta da cozinha. No chão estava o pinto morto. Ofélia! chamei num impulso pela menina fugida.
A uma distância infinita eu via o chão. Ofélia, tentei eu inutilmente atingir a distancia o coração da menina calada. Oh, não se assuste muito! Ás vezes a gente mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente não ama bem, ouça, repeti como se pudesse alcançá-la antes que, desistindo de servir ao verdadeiro, ela fosse altivamente servir ao nada. Eu que não me lembrara de lhe avisar que sem o medo havia o mundo. Mas juro que isso é respiração. Eu estava muito cansada, sentei-me no banco da cozinha.
Onde agora estou, batendo devagar o bolo de amanhã. Sentada, como se durante todos esses anos eu tivesse com paciência esperado na cozinha. Embaixo da mesa, estremece o pinto de hoje. O amarelo é o mesmo, o bico é o mesmo. Como na páscoa nos é prometido, em dezembro ele volta. Ofélia é que não voltou: cresceu. Foi ser a princesa hindu por quem no deserto sua tribo esperava.


Trecho do conto: A legião estrangeira, livro: Felicidade clandestina. ( Clarice Lispector).


Amo este livro, a cada conto uma sensação nova, uma experiência!


Terça-feira, 30 de março de 2010.